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O enigma do Centauro - Bjarke Imprimir E-mail
Escrito por Haras Jotinha Enduro Eqüestre   
18-Jun-2008
retirado do fórum Desempenho: 
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Caros amigos,
Tenho acompanhado a brava discussão deflagrada com as brilhantes perguntas"O que o seu cavalo representa para você?" da Fernanda  e "O que você representa para o seu cavalo?" da Claudia, assim como todas as mensagens em torno do tema "É possível o cavalo gostar de trabalhar?". Estes debates nos trouxeram uma série de opiniões interessantes de pessoas que conhecem cavalos por amor e profissão e a  oportuna consideração da Silvana: "Pior do que não saber é achar que sabe."
Gostaria de acrescentar uma nova perpectiva sobre o tema (já discutida com alguns de vocês) para levarmos o "fenômeno equitação" a um outro patamar de investigação: a psicologia evolutiva. Como os animais (e humanos) evoluiram as suas mentes para realizarem as complexas tarefas "instintivas" de que são capazes?
Segundo estes estudos os animais (inclusive os humanos) são capazes de realizar diversas tarefas teoricamente impossíveis porque criaram a "ilusão" de que sejam possíveis - a exemplo de pessoas capazes de andar em corda bamba. Teóricamente, isto não é possível - mas na prática é possivel para alguns.
O "fenômeno equitação" é uma dessas questões teóricamente impossíveis - isto é: um animal cinco-seis vezes menor, não deveria ser biologicamente capaz de dominar, montar e conduzir o maior - principalmente quando se trata de equitação de alta perfomance, quando os animais tem que atuar com movimentos e objetivos alinhados.  Esta impossibilidade gerou o "mito" do Centauro na Grécia antiga. Nem Aristóteles, o pai da ciência, conseguiu explicar a equitação. Mas Phidias,  com a sabedoria dos poetas, deu forma perfeita ao fenômeno equitação: um cérebro humano a controlar um sistema locomotor equino. A natureza nunca havia produzido uma simbiose tão complexa e com consequências tão espantosas. Mas o fenômeno equitação, segundo a psicologia evolutiva, seria uma "dança de ilusões" onde nada é o que parece ser. Nem o cavalo está realmente sendo conduzido por um cavaleiro nem o cavaleiro possui o controle mecânico que alguns acham possuir.
Estabelecida a dicotomia do Centauro, sendo um cérebro humano a controlar um sistema locomotor equino, vamos primeiramente nos concentrar na função biológica do cérebro: é o orgão cuja função principal é manter o animal vivo. Esta é portanto a função primordial do cérebro humano ao assumir o controle sobre a fisiologia equina. Isto dá ao cérebro humano uma responsabilidade nunca antes considerada: manter todos os sistemas fisiológicos em perfeitas condições de funcionamento! Mas não é isto o que acontece à maioria dos conjuntos cavalo-cavaleiro. Qual o cavaleiro que conhece perfeitamente o sistema cardio-respiratório do seu cavalo a ponto de mantê-lo funcionando dentro de seus limites ideais? Qual o cavaleiro que dá ao seu cavalo um manejo alimentar de acordo com o seu sistema metabólico? Qual o cavaleiro que dá ao seu  cavalo um manejo de vida que permite aos seus sistemas fisiologicos interagirem como precisam - com um pastoreio quase constante seguido de movimento contínuo? Se a função do cerebro é manter o animal vivo, o nosso cerebro está longe de poder substituir o cérebro do cavalo.  Morrem mais cavalos em conseqüência de cólica alimentar e exercício incorreto e abusivo do que de velhice. O que precisamos aprender é a conhecer as características da psicologia e os limites da fisiologia eqüina para então fazermos uso do sistema locomotor do cavalo como ele o faz – e a partir daí ficam respondidas as perguntas: “O que o seu cavalo representa para você?" da Fernanda,  e "O que você representa para o seu cavalo?" da Claudia, assim como todas as mensagens em torno do tema "É possível o cavalo gostar de trabalhar?".  Sim, é  possível – mas é preciso que a mente do cavaleiro que conduz o cavalo esteja perfeitamente sintonizada com a fisiologia do cavalo. Quando o  cérebro humano sabe utilizar a fisiologia equina, o cavalo percebe o cavaleiro como sendo ele próprio e toda a ação não lhe parece comandada de fóra, por um corpo estranho ao seu próprio corpo. O cavaleiro deixa de ser um "instrumento de domínio" e passa a ser um "sistema de gerenciamento de recursos equinos". Isto é possível e, se nem todos o conseguem por falta de habilidade ou conhecimento, deve ser a meta de todo cavaleiro. Devemos primeiramente combater nossa tendência de, muitas vezes, considerarmos uma utopia aquilo que é difícil de alcançar.

 

Quanto ao uso de prêmio alimentar para gratificar o desempenho do cavalo, acredito que seja muito importante como reforço positivo para a aprendizagem, mas deve obedecer a regras educacionais bem definidas. A maioria das pessoas usa mal este instrumento de educação e a gratificação se torna um "suborno", como bem definiu o Aluisio. Mas a gratificação alimentar para o cavalo é como um premio em dinheiro para o humano: será que todo o dinheiro que troca de mãos no mundo é "suborno", ou algumas pessoas trabalham honestamente para merecê-lo?

 

Agradeço a todos que estimularam este oportuno debate,

 

Bjarke 

  

 

Atualizado em ( 11-Nov-2008 )
 
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